Cátedra Ignacy Sachs – PUC-SP | NEF

Essas mulheres impossíveis

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Por Rosa Alegria
8 de março de 2016

Homenagem a Rose Muraro no Dia Internacional da Mulher

rose hazel rosaVivi até meus 20 anos sem saber que para ser mulher era preciso ser impossível, porque até então tudo era concebido na base do “paz e amor”, ao som dos Beatles, no piscar dos meus olhos verdes e no embalo dos meus sonhos juvenis. Não tinha vaga noção de que para ser mulher era preciso ser impossível. Não sabia de  Betty Friedan, muito menos imaginei que um dia iria ter como amigas e mentoras, duas pensadoras que vieram fortalecer minha visão de mundo: Rose Muraro e Hazel Henderson.

Betty Friedan  com quem pude conversar e  conhecer  numa conferência em Washington,  Rose Muraro,  que me revelou o papel da mulher na macrohistória e Hazel Henderson, meu ícone do futurismo, começaram suas respectivas revoluções como donas-de-casa nos anos 60.  Imaginem o que era isso: dona-de-casa nessa época,  sair pelas ruas e pelo mundo para conversar de igual para igual com os donos do poder e além disso, mudar o rumo da história. Só mesmo mulheres impossíveis.

Hoje quero falar especialmente de Rose Muraro. Descobri o que é ser uma mulher impossível quando comecei a ler Rose  (1930-2014), e essa descoberta foi mais impactante quando eu comecei a ver Rose, numa série de visitas em sua casa no Rio. Escrevendo tudo o que escreveu, lendo tudo o que leu, para olhar de telescópio para o passado, presente e futuro do mundo. Essa era Rose. Ninguém melhor do que um homem para descrever essa mulher. Seu amigo de tantos anos, Leonardo Boff assim a registrou “Foi ela que no final dos anos 60 do século passado, suscitou a polêmica questão de gênero. Não se limitou à questão das relações desiguais de poder entre homens e mulheres mas denunciou relações de opressão na cultura, nas ciências, nas correntes filosóficas, nas instituições, no Estado e no sistema econômico. Enfim deu-se conta de que no patriarcado de séculos reside a raiz principal deste sistema que desumaniza mulheres e também homens.”

Rose esteve entre as  maiores editoras e escritoras que o Brasil já teve. Autora de mais de 40 livros e editora de mais de  1600 publicações. Pouco antes de sua morte, recebeu o título “patrona do feminismo nacional”. Por que uma mulher impossível?

Por que uma mulher impossível? A resposta está num dos seus  livros “Memórias de uma mulher impossível” (1999), que conta sua história que de tão perturbadora e fascinante, cola nossa atenção a capa página.

Só uma feminista-futurista  como Rose Muraro para tornar mais digna a profissão que escolhi e me fazer virar de ponta-cabeças tudo o que eu pensava que sabia sobre a mulher na história. Diga-se de passagem, uma história mal contada pelos homens durante séculos.

Em 2005  eu e  minha amiga e pesquisadora Oriana White, conseguimos reunir Rose Muraro e Hazel Henderson num diálogo histórico que foi gravado em evento aberto ao público na sede da escola de filosofia Palas Athena e publicado em  livro (“Diálogos para o Futuro”). Daí em diante, essas minhas duas musas passaram a se comunicar e a se admirarem mutuamente.   Tornaram-se conselheiras honorárias do NEF Núcleo de Estudos do Futuro vinculado à PUC-SP, que juntamente com o futurista Arnoldo de Hoyos, ajudei a criar no ano 2000.

De tão impossível, Rose Muraro fez o que fez. Formou-se em Física e Economia  e em meados dos anos 70 previu com assombrosa antevisão o advento da Internet em sua majestosa (e desconhecida) obra “O futuro do homem” (nunca publicada) que eu tive o privilégio de ler em versão datilografada e amarelada e que muito tempo depois (2009), foi atualizada  na versão “Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade”.

Só uma mulher impossível e com a coragem de Rose para ir na contramão do discurso: nos anos 2000, falando para uma sociedade no auge de seu deslumbramento pela  tecnologia, ela sempre teceu  ácido discurso contra as inovações tecnológicas desmedidas e descomprometida com a ética.  Tinha horror ao pensamento  de Ray Kurzweill, que propagava a Singularidade Tecnológica sem tocar nos riscos de uma sociedade que poderá ser dominada pela máquina. Assim como se assustava com o que  cientista Craig Venter (aquele do Projeto Genoma) se dizia capaz de fazer.

Rose ainda vive através de um registro histórico recentemente criado. Trata-se de um legado informativo representado pela Biblioteca Rose Muraro, a primeira no Brasil em formato físico e virtual, especializada em estudos de gênero. Amigos e parentes se dedicaram na organização de tão rica obra. O  lançamento vai acontecer dia 21 de março no Rio de Janeiro. Na realidade, essa é  uma primeira fase do lançamento da biblioteca, porque faltam móveis e equipamentos para disponibilizá-la ao público  e às novas gerações que tanto irão se beneficiar dela.

Aprendi com Rose, que para ser mulher é preciso ser impossível, ter  coragem de percorrer caminhos hostis, olhar com maior alcance e não perder de vista seus sonhos, e também aprendi que a solidariedade  pode vencer todos os obstáculos. Por isso aqui compartilho com os leitores a oportunidade de serem solidários com o legado dessa grande mulher e contribuírem para a finalização da Biblioteca que apesar de todos os avanços ainda necessita de  R$15.000 reais para operar  plenamente e servir ao público. Os que puderem contribuir com algo podem fazer seu depósito nominal aos cuidados do Instituto Cultural Rose Marie Muraro – Banco Bradesco  – 237 – Ag 2736 – c/c 21959-2 ou enviar email  para o Instituto solicitando informações icrmrio@gmail.com

rose muraro rosa e marcosRose Muraro sempre dizia que “ só o impossível é capaz de criar”. Foi esse mesmo impossível que criou a vida e todas as mulheres que hoje celebram seu dia.

A história de Rose Muraro é a história da evolução da mulher brasileira. Sua narrativa se entrelaça com a narrativa   de outras mulheres impossíveis como Betty Friedan, Hazel Henderson e de tantas outras que como eu e muitas conhecidas e desconhecidas, abriram seus olhos para novos e transformadores caminhos.

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