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Jornalismo investigativo gera lucro para a sociedade, diz diretor de Stanford

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James T. Hamilton, 55, diretor de jornalismo em Stanford, economista pela Universidade Harvard, colocou números naquilo que o jornalismo representa – ou pode representar- para a sociedade.

Fontes:

Foi diante da redução nos mortos pela polícia de Washington (DC) depois das mudanças provocadas por uma série de reportagens, em 1999. “Para cada dólar investido pelo ‘Washington Post’, os ganhos da sociedade foram superiores a US$ 140.”

O problema, nesse e em outros exemplos, é que o ganho social não se traduz em faturamento para o jornalismo, acrescenta. Enquanto não se firma um novo modelo de receita para a imprensa, ela concentra sua atenção em baratear o custo da produção da informação.

Para tanto, defende a transparência crescente de dados, por parte sobretudo dos governos. E a popularização do que chama de “jornalismo computacional”, ferramentas de tecnologia que facilitem identificar padrões nos dados e, a partir daí, informações.

É o que aborda no recém-lançado “Democracy’s Detectives” (Harvard University Press, 384 págs., US$ 35) e na entrevista a seguir.

* * *

Folha – Alguns veem o jornalismo como responsável, em parte, pela eleição de Donald Trump. Você diria que o jornalismo de dados, especificamente, saiu machucado da eleição?

James T. Hamilton – Tenho duas opiniões sobre isso. A primeira é que os modelos de projeção eleitoral são uma parte pequena do jornalismo de dados. E penso que, com o declínio dos jornais metropolitanos nos EUA, eles não fazem mais pesquisas estaduais. Ou seja, os modelos que se baseavam em pesquisas estaduais para prever o Colégio Eleitoral foram afetados por não terem mais pesquisas de qualidade vindo desses jornais regionais.

Mas, se você pensar em jornalismo de dados de maneira ampla, como sendo o uso de dados públicos para descobrir padrões e notícias, o trabalho de investigação do “Washington Post” e do “New York Times” deu às pessoas um bocado de informação sobre Trump e Hillary Clinton. Muitas pessoas processaram essa informação e, mesmo assim, votaram pelos candidatos.

Esta foi uma eleição em que as pessoas podiam dizer: “Compreendi as falhas do candidato, mas realmente desprezo o outro então vou votar por um candidato com falhas”.

Essas mudanças são tratadas no livro “Democracy’s Detectives”, que foi escrito antes da eleição.

No livro, o que descobri foi que o jornalismo investigativo estava ficando concentrado em lugares como “NYT” e “WP”. Isso se refletiu na eleição. Descobri também, de um editor de jornal metropolitano, que nos velhos tempos, quando tinham repórteres, eles estariam conversando com os eleitores pessoalmente, com os líderes partidários locais. A grande surpresa na eleição americana foi o voto da classe trabalhadora branca, nos Estados do “cinturão da ferrugem”. Isso é algo que os jornais regionais tinham mais chance de identificar.

De maneira geral, concluí duas coisas sobre a eleição. Primeiro, que vemos o declínio dos jornais ao redor do país como um problema local, mas, como temos um Colégio Eleitoral em que é o Estado que vota, trata-se na verdade de questão nacional.

A segunda coisa foi a capacidade dos candidatos, especialmente Trump, de ir diretamente ao povo com sua mensagem, mais a relutância do Facebook de enfrentar a proliferação de notícias falsas.

Você vê perspectiva de melhoria nos dois tópicos, jornais estaduais e mídia social?

Sim! Por um lado, conforme você tiver mais acesso a dados, poderá identificar padrões e descobrir onde se aprofundar na investigação. Para ficar no exemplo do “cinturão da ferrugem”, dados econômicos podem ajudar a identificar as cidades que estão sendo mais afligidas pela globalização. As empresas já estão usando dados que geramos em nosso cotidiano, como localização por smartphone, para estudar como são as compras em determinada área. Se os jornalistas forem capazes de usar dados similares de tráfego, poderão identificar padrões em suas próprias cidades. Isso dá esperança para o jornalismo local.

Por outro lado, há nos EUA um debate sobre o Facebook, se é uma empresa de mídia ou de tecnologia. Para mim, é de mídia, porque conecta pessoas com anunciantes por meio de conteúdo e porque toma decisões editoriais através de seus algoritmos. Se for vista como mídia, virá o reconhecimento de que suas informações representam um papel na democracia. O anúncio de que o Facebook vai combater notícias falsas é um primeiro passo para reconhecer que é uma empresa de mídia.

Você escreve no livro que, para cada dólar investido numa reportagem, a sociedade ganha centenas em benefícios, em mudanças de política, leis, instituições. Pode dar um exemplo?

Num dos capítulos, detalho três casos em que levanto o quanto um veículo investiu numa reportagem, determino como o mundo mudou em reação àquela reportagem e procuro estabelecer um valor, em dólar, para os benefícios da sociedade no primeiro ano depois da implementação da mudança de política.

Fiz cálculos assim, por exemplo, para estimar os ganhos sociais quando uma investigação do “WP” levou à queda nos tiroteios da polícia em Washington. Ao custo de US$ 500 mil, nove pessoas trabalharam oito meses no caso, levantando informações que mostraram como a polícia matava proporcionalmente mais do que em outras cidades e como um salto nas mortes coincidiu com a chegada de novos policiais e armamentos.

No primeiro ano depois da série, com as mudanças implementadas pela polícia, como treinamento, o número de pessoas que levaram tiros de policiais caiu de 32 para 11. O número de mortos, de 12 para 4. No sistema regulatório americano, o valor que o governo federal dá para uma vida estatística é de cerca de US$ 9 milhões.

Levando em conta ainda o custo das mudanças implementadas, o resultado é que, para cada dólar investido pelo “WP”, os ganhos da sociedade foram superiores a US$ 140.

Mas os ganhos sociais não significam ganhos para os veículos.

Essa lógica que usei ajuda a explicar por que histórias importantes não são contadas, embora passem pelo teste de custo-benefício social. Elas são caras, sofrem resistência de governos e trazem benefícios para muitos que não são assinantes do jornal. As pessoas não têm consciência de que estão mais seguras por causa do trabalho do jornal.

É importante desenvolver maneiras de sustentar investigações porque é difícil para a mídia lucrar com mudanças de leis e políticas, mas elas podem gerar milhões em benefícios para a sociedade.

Os jornais seguem como o principal motor de investigação, mas têm reduzido suas Redações e, em alguns casos, como no “Guardian”, dissolvido equipes investigativas. Isso tem efeito sobre o jornal como negócio? É uma resposta de curto prazo com efeito negativo de longo prazo?

É exatamente isso. Se estamos agora num mundo que desvincula a reportagem da marca, se as pessoas estão encontrando as notícias através do Facebook, por exemplo, fica mais difícil defender que “precisamos construir a nossa marca”. Mas eu acredito que, no fim das contas, as organizações que vão sobreviver serão aquelas que descobrirem como oferecer uma informação diferente da informação que todos os outros estão oferecendo. Reportagens investigativas, com certeza, são parte disso.

Também acredito que a vontade de experimentar com fluxos de receita é importante para os jornais. Por exemplo, ir até fundações e dizer: “Gostaríamos de manter uma cobertura de ambiente, vocês não gostariam de financiá-la?”. Dez anos atrás, as pessoas nem levariam isso em consideração nos EUA, mas agora você vê fundações desejando financiar coberturas em veículos privados.

Você acha saudável a tendência recente de ONGs, como o Greenpeace, montarem equipes investigativas?

A Human Rights Watch é outro exemplo. Antes, eles fariam um estudo, um repórter poderia entrevistá-los sobre o estudo e então a informação encontraria seu caminho para o mundo, através de um veículo de mídia.

Agora aquele repórter foi demitido, então é uma reação natural que algumas ONGs e até instituições sem fins lucrativos, como universidades, ampliem suas equipes. Estão contando as histórias que não vão interessar necessariamente ao mercado. Se forem transparentes sobre como reuniram as informações, como elas foram geradas, tudo bem.

Você não prioriza a busca de saídas financeiras no livro, mas quais ideias destacaria sobre como sustentar o jornalismo?

Queria que meu livro fosse uma análise de como as coisas funcionam hoje, mas também de como poderiam funcionar. No final eu levanto uma série de observações sobre políticas que poderiam ajudar o jornalismo. Se você torna mais fácil conseguir dados no governo, por exemplo, facilita realizar esse tipo de jornalismo.

Em segundo lugar, tenho grandes esperanças com esse campo chamado de jornalismo computacional, que é na verdade uma sobreposição do jornalismo com a computação. Para o consórcio que centralizou mundialmente o trabalho com os Panama Papers, por exemplo, um dos desafios era como visualizar a relação entre as várias entidades “offshore”. O que fizeram foi recorrer a um projeto nascido aqui em Stanford, no setor de humanidades digitais, chamado A República das Cartas.

Sobre o debate em torno do mundo pós-verdade, devido às redes sociais e ao isolamento dos indivíduos e da informação que eles recebem, você vê saídas, razão para otimismo?

Você pode pensar sobre isso como uma corrida armamentista, em que a verdade neste momento está perdendo. Mas eu acredito que tanta gente está buscando responder a isso, aqui mesmo no campus de Stanford, com tecnologia. Sou otimista no sentido de que as pessoas agora sabem que isso é um problema, e que estão buscando manter os poderes sob vigilância.

Raio-X

  • James T. Hamilton
  • Idade: 55 anos
  • Formação: 
    doutor em economia pela Universidade Harvard
  • Carreira: é diretor de jornalismo da Universidade de Stanford. Autor de diversos livros, como o mais recente “Democracy’s Detectives”, “Conserving Data in the Conservation Reserve Program: How a Regulatory Program Runs on Imperfect Information” e “Channeling Violence: The Economic Market for Violent Television Programming

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